Diretoria da SINDUTF-PR lança manifesto pela manutenção da suspensão das atividades presenciais e pelo não estabelecimento de atividades remotas


A diretoria da Seção Sindical dos Docentes da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (SINDUT-PR) lançou um manifesto em defesa da suspensão das atividades presenciais e pelo não estabelecimento das atividades remotas na instituição em decorrência da pandemia. O documento afirma que “manter essas suspensões são um acerto para que se tenha a calma necessária, para seguirmos no isolamento social, reconhecidamente, a melhor forma de diminuir a propagação do vírus e o impacto no sistema de saúde”. 

O texto é resultado de uma reunião da diretoria, que ocorreu de maneira remota na última sexta-feira, dia 8 de maio. Leia na íntegra abaixo:

A quem interessa parecer que está normal?

Manifesto da SINDUTFPR.

No cenário da pandemia do Covid-19, o estranhamento sobre a realidade que conhecíamos nos leva a refletir sobre tudo que nos cerca. Soluções de todos os tipos para essa emergência global são cotidianamente pensadas. Isso passou a ser um desafio diário e envolve a ciência, a cultura, a tecnologia e a política. Para organizar essa reflexão e esse desafio, que é individual e coletivo, precisamos ter tempo e tranquilidade. Assim, para o desenvolvimento de projetos de combate ao Covid-19 e, para cuidarmos de todas e todos, precisamos ter uma outra percepção das ações institucionais. Desta forma, esse manifesto vem a público na defesa manutenção da suspensão das atividades presenciais por tempo indeterminado e pelo não restabelecimento das atividades de ensino, remotas e virtuais.

Manter essas suspensões são um acerto para que se tenha a calma necessária, para seguirmos no isolamento social, reconhecidamente, a melhor forma de diminuir a propagação do vírus e o impacto no sistema de saúde.

Importante relembrar que, durante décadas, os serviços públicos e o funcionalismo foram atacados por políticas e campanhas difamatórias. O objetivo era criar um panorama propício para as privatizações, tão ao gosto neoliberal. Os cortes nas universidades, que continuam avançando contra os direitos dos servidores, que diminuem drasticamente as bolsas de pesquisa e da assistência estudantil, fazem parte dessas políticas. Em meio à pandemia, ocorrem mais cortes nas áreas de Ciências Humanas, justamente as áreas que nos ajudariam a refletir sobre o estranhamento e o desenrolar das questões cotidianas. Sendo o Brasil um país historicamente desigual, o não investimento nos serviços públicos dá lugar a individualização liberal do acesso à tudo que é produzido socialmente.

Nesse horizonte, há uma pressão do MEC para que uma pretensa “normalidade” passe a ser construída nas universidades. Toda normalização caminha junto com a naturalização do social. O objetivo é tornar as atividades de ensino remotas como algo normal e por suposição, naturalmente necessárias. Não devemos confiar nessas premissas. Elas não contribuem para a construção de ações e de projetos de apoio às pessoas e de combate ao vírus. Tanto na vida particular como institucional, essa construção é fundamental. Ela se faz necessária pela realidade pandêmica que vivemos. Institucionalmente, passa pelo exercício da Autonomia Universitária, elemento basilar para que haja o pluralismo de ideias, de concepções pedagógicas como também, para a gestão democrática do ensino público, visando que sua qualidade seja socialmente referenciada.

É importante assinalar que mesmo com o calendário letivo suspenso, não estamos parados. A quantidade de projetos de pesquisa e extensão, em que servidores e estudantes estão envolvidos, na instituição são demonstração disto. A produção de máscaras, álcool gel, produtos de higiene em geral, respiradores, a assistência aos estudantes e comunidade em geral, rodas de conversas sobre saúde mental, Ciência e pandemia, entre outros, são exemplos do quanto a comunidade acadêmica está mobilizada. Manter o calendário letivo suspenso, permitirá que novos projetos surjam e que, os que já existem, se ampliem. A pesquisa e a extensão permanecem como atividades também educativas, pois ajudam a formar profissionais que possam pensar problemas globais que se apresentam: desemprego tecnológico, precarização do trabalho, falta de acesso à saúde, à água potável, à moradia, ao saneamento básico, à saúde, à educação, à inclusão digital, ao lazer e à cultura. Formar os estudantes para esses fatos são tarefas que exigem uma ampla reflexão, ética e tecnológica.

Além disso, entender a realidade estudantil significa pensar em muitas questões. Em 2018, a pesquisa da Andifes, apontou que a maioria dos estudantes das universidades federais são de baixa renda. Essa situação se complexifica em meio à pandemia. Muitos estudantes têm que manter suas famílias com os auxílios estudantis, estão cuidando de familiares adoecidos e que necessitam de amparo, estão impactados com o isolamento, muitos não possuem sinal da internet, nem computadores, pois utilizavam da universidade. Ou, ainda, quando possuem planos de acesso à internet, eles são limitados. Muitos possuem somente seus celulares, que não são a melhor ferramenta para o ensino. Toda e qualquer política interna, deve considerar essas vulnerabilidades. Por isso, somos uma universidade. O amparo legal e a razão republicana impõem um compromisso com esses estudantes, para que na sua diversidade, não sejam vistos a partir de uma ideologia capacitista, que excluí aqueles que não se adequam a normalidade meritocrática vigente.

O acesso à plataformas de ensino, à laboratórios e bibliotecas, aos espaços acadêmicos – tão importantes para o desenvolvimento da formação profissional, tem que ser de todos e todas. Para isso, teríamos que ter políticas de inclusão digital ampla. E não é o que vêm ocorrendo. Ao contrário, o acesso à internet, à máquina, ao conhecimento não é pleno e cidadão. A comunidade acadêmica tem que se manifestar contrária a isso.

A criação de nichos de exclusão não corresponderia ao que se espera da universidade brasileira, pública e universal, que tem como razão de ser no seu sentido pleno, a universalidade de acesso e permanência. O esforço das famílias já está sendo complexo. Aumentar esse esforço, ao se defender a volta de atividades remotas, tensionará a permanência dos estudantes. Essa tensão criará nichos de evasão. A evasão é algo que não desejamos. Muito já discutimos sobre formas de contê-la, por isso não podemos incentivá-la. Ao contrário. Devemos manter nossos estudantes perto da universidade, para incentivá-los à reflexão, à criatividade, à autonomia. Essa proximidade não pode ser dar via a naturalização da exceção, da exclusão e da normatividade virtual. Em plena pandemia a vida pede calma. A ciência pede criatividade. A tecnologia pede espaço para ser desenvolvida.

Não à evasão. Não ao capacitismo.

Em defesa da universidade pública, gratuita, democrática, laica, de qualidade e socialmente referenciada.

Em defesa da autonomia universitária.

O manifesto em pdf pode ser baixado clicando no link abaixo: